Plano de fuga
Gostaria de ser uma daquelas pessoas que entra nos lugares como quem se entrega ao acaso, confiando que o espaço a acolha, que as pessoas sejam gentis e que o momento se resolva por si.
Mas não sou.
Na verdade, sou exatamente o contrário.
Entro com um gesto prévio de atenção, quase imperceptível.
Um gesto que não se vê de fora, mas que organiza tudo por dentro.
Começo por localizar saídas, medir distâncias, reconhecer limites.
Não para fugir, mas para garantir que a permanência é minha escolha e não uma imposição.
Não é medo, embora possa parecer.
Nem controlo excessivo, apesar de ser uma forma de controlo.
É uma necessidade silenciosa de margem.
É algo invisível que permite respirar dentro dos contextos, sobretudo naqueles que confundem a proximidade com uma certa intimidade, e que se tornam cansativos não pela hostilidade, mas pela intensidade constante que exigem.
As multidões, nesse sentido, não são um problema numérico.
São um problema estrutural.
E eu odeio-as...estruturalmente.
Retiram-me espaço, abafam-me as saídas, sobrecarregam-me com ruído e expectativas implícitas.
Fazem-me sentir dentro de algo do qual é difícil sair sem fricção, mesmo quando nada está efetivamente errado.
Curiosamente, esta inquietação raramente nasce de um perigo real, mas da possibilidade futura desse perigo aparecer.
Angustia-me não conseguir antecipar que, se algo mudar, se o desconforto surgir, eu não tenha a margem de manobra suficiente para sair com dignidade.
E essa impossibilidade de antecipação pesa-me mais do que o desconforto em si.
Este é um mapeamento constante que se estende tanto aos lugares como às pessoas.
Erradamente já me disseram que roça a frieza ou a distância emocional.
Mas é uma ética de espaço, onde cada aproximação tem de ser consentida e cada permanência tem de poder ser interrompida.
Pensar numa saída não é necessariamente desejar partir, tantas vezes é apenas criar as condições para querer ficar.
Eu só sinto que permaneço verdadeiramente quando sei que não estou preso. E só me entrego quando sinto que posso recuar sem culpa.
Às tantas isto é só uma elaboração excessiva para justificar a minha personalidade naturalmente aborrecida.
Mas mesmo esta hipótese, curiosamente, também precisa de uma certa margem para existir.