Ser Só

Ser só nem sempre é ser isolado.
Ser só nem sempre é estar sozinho.
Ser só nem sempre é ter a ausência dos outros.

Por vezes, precisamos mesmo de ser imensos para sabermos ser sós.

Não no sentido literal das palavras.
Nem sempre a literalidade é necessária.

Não sei se isto é sobre uma grandeza visível, ou sobre grandes feitos que mal cabem num currículo bem organizado, acompanhado de uma fotografia bem iluminada.

Sinto que este imenso é outro.
É mais silencioso.

Um imenso que não se vê de fora, mas que ajuda a sustentar tudo o que se passa aqui dentro.

Ser só não é, obrigatoriamente, o estar sem pessoas. Também pode ser, mas nem sempre o é.

Diria que é mais estar sem distrações.
Deixar que o ruído baixe.
Que as notificações cessem de piscar.

Mas também é afastar as opiniões alheias, as validações rápidas para nos dizer quem somos naquele instante.

E é aqui que eu, muitas vezes, encolho.
Não apenas por fraqueza, mas porque nem sempre sei ocupar o meu próprio espaço.

Cresci (como você, provavelmente) a preencher.

Horários.
Conversas.
Silêncios.

Há sempre algo a fazer, ouvir, ver, responder.

Ainda assim, tento não tratar o meu só como um erro de sistema. Nunca o vi como algo a corrigir rapidamente com uma playlist, um vídeo ou um scroll infinito.

Ser só exige volume interior.
Exige pensamentos que assustam, perguntas sem resposta imediata, contradições que podem coexistir sem pressa de serem resolvidas.

E talvez o mais difícil: ser só exige aguentar a própria presença sem pedir desculpa por ela.

Ser só nunca será sentir-me abandonado de mim mesmo.

Isto cria confusão aos que olham de fora.
Porque precisar de pessoas é humano.
Querer partilhar é saudável.

Ser imenso é criar espaço para a dúvida, mesmo quando o silêncio é desconfortável.

Aceitar que há dias em que não serei brilhante, produtivo ou interessante - e ainda assim ficar.

Insistir.

Ser imenso é difícil.

Não diria que quem é só chega mais inteiro aos outros.
Mas, pelo menos, não chega com uma ânsia de ser completado.

Ser só sustenta-se na partilha - primeiro comigo, depois com os outros. Não ocupa o espaço alheio por medo. Aproxima-se por escolha.

Ser só assusta. Não porque revele uma ausência de mundo, mas porque expõe a dimensão do que somos por dentro.

Demasiado pequeno.
Demasiado barulhento.
Demasiado dependente.

Ser imenso não é ser maior.
É querer construir-se.

Lentamente.
Em momentos desconfortáveis.
Em tardes vazias.
Em conversas internas que não são bonitas.

Ser imenso e ser só é aprender a sentar-me comigo mesmo e não ter vontade de sair dali a correr. E, quando isso acontece, ser só e ser imenso passam a ser um único lugar.

Se achas que és só e não sabes bem como lidar com isso, o máximo que te posso dizer é que: ser só não deveria doer.

O que dói é, muitas vezes, ainda não sermos imensos o suficiente para habitar o nosso próprio só confortavelmente.

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