Sua Senhoria

Houve qualquer coisa naquela frase que me fez parar o que estava a fazer.

Não foi o tom, meio rabugento, meio arrastado, próprio de quem ainda não acordou bem para o dia.

Foi a construção escolhida, a escolha das palavras mas acima de tudo a ironia implícita.

- 'Sua senhoria', foi este o termo que o meu filho usou esta manhã para se dirigir à mãe.

Eu estava na cozinha a preparar o pequeno almoço e parei para me rir.

As crianças fazem isto quando lhes damos espaço: surpreendem-nos com uma linguagem que nem sempre esperamos delas.

Não é por serem pequenos génios, mas porque absorvem o mundo tal como ele lhes é apresentado.

E a linguagem é um território onde isso fica muito visível.

Há uma tendência (muitas vezes bem-intencionada) para infantilizar o discurso dirigido às crianças.

Simplificar demais.
Reduzir frases.
Trocar palavras por diminutivos.

Como se a complexidade fosse um peso excessivo para quem ainda está a aprender a existir.

Mas a linguagem não oprime quando é viva.
Pelo contrário: expande.

Quando falamos com crianças como quem fala com pessoas (porque é isso que elas são), estamos a oferecer-lhes ferramentas.

Vocabulário, ritmo, ironia, intenção. Estamos a mostrar que as palavras não servem apenas para pedir coisas, mas para pensar, responder, provocar, defender-se, brincar.

E depois acontecem momentos como este: um puto meio ensonado, ligeiramente contrariado, a usar humor e sarcasmo para se posicionar no mundo.

Não gritou.
Não se fechou.
Construiu um argumento, ainda que meio torto, ainda que meio emocional.

A maturidade da linguagem não nasce da idade.
Nasce do ambiente.

De ouvir conversas completas.
De não ser interrompido constantemente.
De perceber que as palavras têm consequências e subtilezas.
De saber que pode ( e deve) experimentar, pode errar sem ser corrigido a cada sílaba.

Só tenho 5 anos de educador, mas acredito que isto passa menos por ensinar respostas certas e mais por não empobrecer as perguntas.

Por não subestimar a capacidade de compreender, mesmo quando a compreensão ainda é (meio) imperfeita.

Ao não infantilizar o discurso, não estamos a apressar a infância.
Estamos apenas a respeitá-la.

E, às vezes, enquanto preparo o pequeno almoço, aprendo uma coisa ou duas sobre isso.

Eu sei que os filhos são sempre espetaculares... e eu de facto tenho muito orgulho neste puto xarila!

Passar bem.

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