Os olhos também comem

Os olhos também comem!

Esta expressão irrita-me tanto que se alguma vez me ouvires dizê-la, leva-me ao médico porque devo estar com um traumatismo cranioencefálico (ai, que vem aí a polícia das palavras simples!).

Irrita-me porque vai ao mais básico que o ser humano tem, porque é extremamente factual, importante e fútil.

Importante porque funciona.
Fútil porque nos denuncia.

Esta aparente importância que é dada ao que vemos como sendo ou não agradável terá, por certo, uma explicação cravada algures no nosso cérebro primitivo.

Bonito = Bom (à partida), Feio = Mau!

Desconfiar do que tinha mau aspeto era uma questão de sobrevivência, não de estética.

O problema é que esse mesmo mecanismo continua ativo, mesmo quando já não estamos a decidir entre um cogumelo venenoso e outro comestível.

Se uma comida que vem para a mesa tiver um aspeto MEH, a tal mente primitiva ativa um qualquer gatilho que já não deixa que o sabor dessa mesma comida seja UAU.

O paladar nem sequer teve hipótese, já entrou derrotado.

E isso intriga-me para caraças, porque muitas vezes não provamos com a boca, mas sim com o nosso preconceito e medos.

Isto acontece-me com o bacalhau com natas. Adoro!

É daquelas comidas de conforto que me transporta para uma espécie de útero culinário onde me sinto acolhido.

Quente e seguro.

A menos que apanhe uma espinha.
Aí f*deu tudo.
Por mais saboroso que a porra do bacalhau esteja, já não vou conseguir aproveitar da mesma maneira.

Eu, um quarentão de voz grossa, fico logo com o corpo em alerta.
Já não estou a comer, estou a desconfiar!

Mas isto nem é bem sobre comida.

Dizemos à boca cheia que o exterior não conta, que o que conta é o interior. É o discurso certo, o que fica bem dizer.

Mas não me lixem: as pessoas bem vestidas causam melhor impressão.
As pessoas cheirosas ativam uma espécie de feromonas invisíveis que as outras não ativam.

E isso é o que é.
Não é bonito nem feio é apenas humano.

Mas isto também não é sobre pessoas. (Ou talvez até seja, mas só de raspão.)

O que me intriga é que continuamos a confundir o empratamento com o sabor. E por vezes lá aparece o raio da espinha para estragar o que parecia visualmente perfeito!

Mas ainda bem que assim é, porque se a aparência, por si só, conseguisse explicar a essência, então para que nos serviria o paladar?

Para que serviria a segunda garfada, o tempo, a insistência, a curiosidade?

O paladar, o literal e o metafórico, existe para nos obrigar a ir mais fundo.
Lembra-nos que nem tudo o que parece bom alimenta e que nem tudo o que parece estranho faz mal.

Que há sabores que só se revelam depois de um certo desconforto.
E que, às vezes, o problema não está na espinha… está na pressa em querer voltar ao conforto.

Os olhos comem é verdade, mas é o resto do corpo (e um bocadinho de coragem) que decidem se valerá a pena ferrar o dente naquele naco...

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