Nunca me chamaram de anjo
Nunca me chamaram anjo.
Pelo menos não sem uma ironia clara e sorridente, daquelas em que a palavra anjo é carregada e já vem com um par de as(p)as invisíveis.
E está tudo bem assim.
Aliás, estranho seria não estar bem. O quão ridículo seria eu vir para aqui queixar-me porque nunca fui tratado por anjo?
Pfff. Como se isso importasse alguma coisa! Não é propriamente como se estivesse a escrever um texto sobre nunca me terem chamado de anjo...
Mas a verdade é que de angelical tenho muito pouco.
Que é como quem diz: nada.
Não tenho a paciência dos perfeitos, nem a postura imaculada dos que flutuam acima do conflito.
Piso o chão com dois pés pesados, levanto pó (dançar como amigo, só), tropeço em ideias estúpidas e, às vezes, faço questão de não pedir desculpa por isso...olha aqui o rebelde!
Talvez seja por isso, ou por parecer um bocado matarruano - pelo menos é essa a impressão que às vezes passo. Na verdade, sou mais antissocial, mas reconheço que a linha é ténue e raramente explicada.
Não é que eu não goste de pessoas. Gosto, sim.
Mas já tenho tantas na minha vida que, para entrarem mais, ou saem algumas ou as novas têm mesmo de valer muito a pena.
Talvez me esteja a meter em bicos dos pés, mas a minha intimidade é um privilégio, não um direito.
Agora que penso bem nisso, talvez eu seja assim porque nunca me chamaram anjo.
Já me chamaram amor, menino, jeitoso, senhor, cabeça de c*ral#o, filho de senhoras que oferecem conforto e proximidade física em troca de dinheiro… mas anjo, efetivamente, nunca.
No imaginário comum, os anjos são seres de pureza.
Imaginamo-los como guerreiros de luz ou como pequenas crianças - o que é uma imagem estranha para caraças aos dias de hoje...
Os anjos são feitos de calma.
E eu sou mais dado à inquietação. (cá dentro inquietação, inquietação)
Os anjos são feitos de concordância.
E eu tenho uma relação antiga e mal resolvida com o consenso fácil.
São feitos para proteger sem questionar.
E eu prefiro questionar primeiro o que é que está realmente em perigo.
Mesmo um dos anjos mais famosos não era assim tão angelical.
Lúcifer, por exemplo.
Que não caiu por maldade, mas por lucidez excessiva.
Por não encaixar bem em narrativas simples.
Por achar que a luz não serve só para iluminar - também serve para revelar as fissuras.
Nunca me chamaram anjo porque eu não (sou) pareço um.
Ainda que, por vezes, suavize arestas para ser mais fácil de engolir.
Baixe o tom para caber melhor na sala.
Disfarce a dúvida com frases feitas.
Honestamente, isso só faz de mim um imperfeito, irracional, medroso, por vezes cobarde, ocasionalmente altruísta - humano.
E ainda bem.
Prefiro a honestidade de quem não promete salvação nenhuma e o desconforto de uma pergunta bem feita à tranquilidade falsa de uma resposta pronta.
Se ser anjo for não cair em tentação, não errar, não falhar…
então está tudo explicado.
Talvez eu esteja mais próximo da queda do que do voo.
Passar bem.